Rodeada pelo extenso vale do rio Draa e pelos seus palmerais, combina paisagens áridas de deserto com um rico património cultural bereber que a torna um destino imperdível para os amantes da aventura e da autenticidade marroquina.
A cerca de 350 quilómetros de Marraquexe, ao pé das montanhas do Anti-Atlas, este enclave oferece uma porta de entrada para o Sara e recebe os viajantes com a hospitalidade característica da região.
1. História de Zagora
A história de Zagora remonta a tempos antigos. No entanto, a cidade moderna ganhou forma durante o protetorado francês na década de 1930, quando aqui se estabeleceu um centro administrativo regional.
Uma fortaleza almorávida do século XI
Pela sua localização, a cidade e os arredores têm sido habitados por comunidades bereberes há séculos. A partir do século XVI, a região ganhou relevância histórica como berço da dinastia saadiana, que partindo deste oásis conseguiu estender o seu domínio a todo o Marrocos.
Nesses séculos de esplendor caravaneiro prosperou como última paragem antes de se internar no deserto rumo a Tombuctu. O célebre letreiro «Tombuctu 52 dias», à entrada da cidade, continua a recordar esse passado, quando as caravanas carregadas de tâmaras, ouro e sal partiam daqui rumo ao coração do Sara.
2. Geografia e envolvente
A cidade situa-se na região de Draa-Tafilalet, numa planície de oásis a cerca de 724 metros acima do nível do mar, rodeada de colinas pedregosas e desertos abertos. Atravessa-a o leito do rio Draa que, embora corra de forma intermitente, deu vida a um dos palmerais mais extensos do norte de África.
1,5 milhões de palmeiras
A envolvente natural combina o deserto pedregoso (hamada) com áreas de dunas próximas. A sul começam as areias do Sara, sendo as dunas de Tinfou o primeiro contacto com o deserto aberto. Estas dunas baixas, de areia finíssima e tons esbranquiçados, oferecem uma antevisão do Sara antes de se chegar aos grandes ergs mais a sul. A norte erguem-se os contrafortes do Anti-Atlas, protegendo o vale.
Clima e quando visitar Zagora
O clima é tipicamente desértico.
Verão
Extremamente quente, com temperaturas diurnas que ultrapassam os 40 °C em julho e agosto.
Primavera e outono
O termómetro é mais ameno, rondando máximas de 25-30 °C.
Inverno
Contraste acentuado entre o dia e a noite: as tardes são amenas, cerca de 20 °C, mas ao anoitecer o termómetro pode descer até 0 °C nas madrugadas de dezembro e janeiro.
As chuvas são escassas e esporádicas. Ocasionalmente, entre novembro e fevereiro, alguma tempestade faz reviver por uns dias o leito do Draa e cobre o deserto de efémeras florzinhas silvestres na primavera.
Uma das cidades mais quentes de Marrocos
3. Património cultural
O património cultural de Zagora reflete a rica história e diversidade das comunidades que habitaram este oásis. A maioria da população local é de origem bereber (amazigh), pertencente a tribos do Anti-Atlas. No entanto, ao longo dos séculos a cidade também acolheu comerciantes árabes e até uma notável comunidade judaica até meados do século XX.
Legado arquitetónico
Esta mistura percebe-se na arquitetura tradicional: os antigos ksar (povoações fortificadas) do vale do Draa e as kasbahs de adobe exibem um estilo bereber autêntico, adaptado engenhosamente ao ambiente desértico. Construídas com terra, palha e pedra, as suas muralhas cor de ocre mantêm interiores frescos e confundem-se com a paisagem.
O Ksar de Tissergate
Legado cultural
Outro tesouro é o legado espiritual e intelectual que perdura na região. A apenas 20 km fica Tamegroute, sede de uma das bibliotecas corânicas mais importantes de Marrocos. Fundada no século XVII pela confraria Nassiria, chegou a reunir milhares de manuscritos trazidos de todo o mundo.
Um Alcorão do século XI em pele de gazela
O artesanato local é outro pilar do património zagorense. Destaca-se a cerâmica verde de Tamegroute, famosa em todo o Marrocos pelo seu vidrado de cor esmeralda escura. Nas suas oficinas cooperativas, famílias de oleiros elaboram à mão, desde o século XVII, peças únicas: tajines, taças e azulejos com um acabamento vidrado esverdeado característico.
Também é singular a tradição ourives nos arredores. No Ksar de Amezrou, a cerca de 3 km, perdura a herança dos antigos artesãos judeus. Esta povoação fortificada, habitada desde o século XVIII, albergou uma importante comunidade hebraica dedicada à ourivesaria em prata. Ainda hoje se podem visitar ali uma pequena sinagoga em pé e oficinas onde os artesãos locais fundem a prata em moldes de argila para criar joias com motivos bereberes tradicionais.
4. Tradições locais
A vida quotidiana em Zagora está impregnada de tradições ancestrais que os habitantes mantêm com orgulho.
O souk de domingo
A hospitalidade é um valor fundamental entre os zagorenses. É comum que, após uma breve conversa, algum morador convide o visitante para a sombra de uma palmeira para partilhar um copo de chá de menta bem quente, conhecido coloquialmente como o "whisky bereber". Este gesto, simples na aparência, reflete o calor e a generosidade das pessoas do oásis, que consideram o hóspede uma bênção.
5. Pontos de interesse em Zagora
Embora Zagora em si seja uma cidade pequena e modesta, tanto na própria localidade como nos arredores há numerosos lugares que permitem ao viajante compreender a sua riqueza cultural e natural.
Biblioteca de Tamegroute
Situada num antigo ksar e atendida por descendentes dos sábios da confraria sufi, oferece visitas guiadas onde se podem admirar alguns manuscritos centenários escritos em belíssimas caligrafias árabes.
Oficinas de olaria de Tamegroute
Muito perto da biblioteca. Aqui é possível observar o processo artesanal da famosa cerâmica verde. Ver os artesãos moldar o barro no torno de pé e cozer as peças em fornos de adobe liga-nos a tradições do século XVII ainda vivas. Na loja cooperativa expõem-se tajines, taças e azulejos saídos do forno.
Centro histórico
Um passeio pela medina leva a descobrir a arquitetura local. Ali fica o bairro judeu ou mellah, com as suas vielas estreitas e casas de adobe, memória da comunidade hebraica que ali viveu até meados do século XX. Ainda se respira autenticidade em recantos como a antiga Kasbah, uma fortificação parcialmente em ruínas que outrora serviu de residência a caídes e autoridades locais.
Cooperativas femininas
Na parte nova da cidade destacam-se os mercados de artesanato e estas cooperativas de produtos locais, como tecidos bereberes e cosméticos de hena e argão.
Os arredores
Muito perto ergue-se o Jebel Zagora, uma colina-montanha que oferece a melhor panorâmica da região. Pode fazer-se uma caminhada simples até ao cume, com cerca de uma hora de subida.
Suba ao amanhecer
A cerca de 15 km, a paisagem muda novamente: o alcatrão dá lugar à areia nas Dunas de Tinfou. Este pequeno campo de dunas, com cerca de 30 metros de altura, é facilmente acessível e oferece uma parte do deserto de erg para quem não dispõe de tempo para se internar mais profundamente. Do seu cume pode avistar-se o horizonte infinito do Sara.
O letreiro "Tombuctu 52 dias"
Nenhum percurso estaria completo sem uma fotografia junto a este cartaz pitoresco, com inscrições em árabe e francês e ilustrações de camelos. Tornou-se um símbolo do local e uma lembrança do seu passado caravaneiro.
Ksar de Amezrou
Pela sua sinagoga e a sua ourivesaria tradicional em prata.
Museu do Vale do Draa
Situado numa antiga kasbah na zona de Aslim, onde se exibem objetos quotidianos e fotografias históricas da região.
Os palmerais da N9
Ao longo da estrada, salpicados de pequenos ksour de adobe e kasbahs semiabandonadas.
6. Gastronomia local
A gastronomia de Zagora é um reflexo fiel da sua envolvente e história, combinando ingredientes do oásis com a tradição culinária marroquina.
As tâmaras, as protagonistas
Aqui podem degustar-se todos os pratos emblemáticos da cozinha marroquina, mas alguns têm toques especiais da zona:
Tajine de borrego com ameixas e amêndoas
Muito popular nos festivais e celebrações familiares.
Cuscuz com sete legumes
Preparado tradicionalmente às sextas-feiras. Aqui costuma incluir cenouras, courgettes, nabos, grão-de-bico e abóbora, temperados com especiarias suaves e servidos com pedaços de frango ou borrego cozido a vapor sobre a sêmola.
Pão de areia
Uma autêntica especialidade nómada que se prova em pleno deserto. Amassa-se farinha com água e sal, enterra-se a massa sob a areia quente e brasas de fogo, e após uns minutos desenterra-se um pão redondo, achatado e fumado, com crosta tostada e interior fofo.
Chá de menta
O onipresente, preparado com chá verde gunpowder, folhas de hortelã fresca e bastante açúcar.
Kaab el ghazal
Cornos de gazela recheados com pasta de amêndoa e aromatizados com água de flor de laranjeira. Também são típicas as tâmaras recheadas com noz e cobertas de mel.
Harira e chá de ervas do deserto
Depois de um jantar sob as estrelas, com tomilho e artemísia, ideais para combater o fresco noturno.
7. Como chegar a Zagora
Chegar a Zagora faz parte da aventura, pois implica percorrer paisagens impressionantes mas isoladas do sul de Marrocos. A opção mais comum é viajar por estrada a partir das cidades importantes.
De Marraquexe de carro
Pode ir-se em veículo privado ou táxi partilhado, atravessando o Alto Atlas pelo porto de montanha de Tizi n'Tichka até Ouarzazate, e daí continuando via Agdz. São cerca de 350 km, que de carro demoram cerca de 7 horas devido às curvas de montanha e a eventuais paragens panorâmicas. O percurso é extremamente cénico.
De Marraquexe de autocarro
Há serviços diários operados pela CTM ou Supratours. A viagem costuma durar entre 8 e 10 horas, dependendo das paragens e do trânsito. Convém reservar com antecedência na época alta. Também existem minibus turísticos que fazem a rota em dois dias, com noite em Ouarzazate.
Via Ouarzazate
O seu aeroporto tem alguns voos nacionais a partir de cidades como Casablanca. Dali faltam cerca de 160 km, entre 2,5 e 3 horas de estrada. Em Ouarzazate é fácil encontrar táxis privados ou partilhados, bem como autocarros locais.
Deslocar-se pela zona
Uma vez aqui, deslocar-se pela localidade é simples: pode percorrer-se a pé a maior parte da povoação, já que a avenida principal (Mohammed V) concentra comércios, restaurantes e o souk. Para distâncias mais longas dentro do vale existem táxis locais e carros de aluguer. Se se quiser explorar aldeias próximas como Tamegroute ou Amezrou, um grand taxi é uma solução económica: partem da estação quando completam os passageiros.
Escolha guias credenciados para o deserto
Temos um percurso de dois dias de Marraquexe ao deserto de Zagora, ainda em preparação. Escreva-nos e contamos-lhe tudo.
Conte-nos a sua viagem8. Experiências recomendadas em Zagora
Passeio de camelo ao entardecer
Montar em dromedário pelas dunas próximas é praticamente um rito. Costuma fazer-se ao final da tarde para contemplar como o sol poente tinge de dourado e laranja o deserto.
Percurso pelo palmeral do Draa
Caminhar ou andar de bicicleta à sombra das palmeiras é uma forma excelente de apreciar a vida rural. Há trilhos entre hortas de hena, milho e quintais familiares, regados pelo tradicional sistema de valas. Pode visitar-se também o sistema de khettaras, antigas canalizações subterrâneas.
Noite em acampamento bereber
Uma das experiências mais mágicas. Excursões em 4x4 ou em caravana de dromedários levam até um acampamento nas dunas, onde se dorme em tendas haima sob um céu cheio de estrelas, com jantar típico à volta da fogueira e música de tambores.
Tour em 4x4 pelas pistas do deserto
Com um guia experiente é possível seguir a rota do antigo rali Paris-Dakar que ligava Zagora a Merzouga. No caminho visitam-se kasbahs abandonadas, pinturas rupestres escondidas em rochas como as de Foum Chenna e povoações nómadas.
Workshops de cozinha
Muitos alojamentos organizam-nos para ensinar a preparar pão bereber ou tajines com produtos do oásis.
9. Conselhos úteis para visitantes
- Vestuário adequado: o sol pode ser inclemente e os costumes locais são conservadores. Leve roupa leve mas que cubra boa parte do corpo, chapéu ou turbante e óculos de sol. Nas noites de época fria, acrescente um casaco quente. O calçado fechado é preferível para caminhar sobre areia e rochas.
- Hidratação e saúde: o clima seco pode levar rapidamente à desidratação. Beba água com frequência, mesmo sem sede, e leve sempre uma garrafa. Um bom protetor solar (mínimo FPS 30) e um bálsamo labial são indispensáveis. Se dormir no deserto, considere um saco-cama ou manta térmica no inverno.
- Dinheiro em numerário: há multibancos na avenida principal, mas convém chegar com numerário suficiente caso não funcionem. Os comércios locais, mercados e guias individuais normalmente não aceitam cartões.
- Idioma: aprender algumas frases em francês ou árabe será muito apreciado. As pessoas estão habituadas a turistas, por isso com gestos e paciência é possível entender-se no essencial.
- Respeito cultural: peça permissão antes de fotografar pessoas. Se for convidado a entrar numa casa, descalce os sapatos ao entrar e aceite pelo menos um copo de chá. Durante o Ramadão, evite comer ou beber em público durante o dia.
- Segurança e logística: conduza com prudência, sobretudo à noite, porque pode haver animais na estrada. O telemóvel tem cobertura na cidade mas perde-a a poucos quilómetros do deserto: avise sempre alguém de confiança sobre qualquer excursão a solo.